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A ABC nasce das iniciais de António de Bacelar Carrelhas. Nascido a 15 de Julho de 1969, deixou-nos no dia 22 de Fevereiro de 2013, poucos meses antes de fazer 44 anos. A Associação ABC foi criada no dia 3 de Março de 2014 pela família e amigos de António com o objetivo de dar continuidade à obra que este desenvolveu durantes os últimos anos de vida e de dar corpo à sua convicção de que todo e qualquer ser humano tem o direito a ser acolhido e ajudado.
O António fumou o seu primeiro "charro" aos 12 anos, mantendo o uso continuado da Canábis por aproximadamente 20 anos, não desgovernando aparentemente a sua vida. Apesar de ter experimentado ocasionalmente outras substâncias, a Canábis foi a sua droga de escolha.
Como qualquer uso continuado de substâncias psicoativas, mesmo as que eram consideradas “drogas leves”, o António acaba por dar o salto esperado, quando se torna uma pessoa dependente. Num curto período de tempo Iniciou o consumo de cocaína, que misturado com uso prolongado de Canábis, originou uma forte psicose, levando-o um internamento quase compulsivo num Centro de Tratamento de Dependências.
Foi então aos 37 anos que recomeçou a sua vida: livre e limpo de substâncias. Juntou-se ao Programa de Narcóticos Anónimos e travou uma conquista diária por mais 24 horas em sobriedade, aplicando o lema “só por hoje”, e até “só por um minuto”, que tanto respeitou e cumpriu.
No início do seu processo de recuperação, o António travou duras batalhas com a sua saúde, quer a de ordem emocional, psicológica, mas sobretudo a mental. Ao fim de uns meses de saída do Centro Terapêutico, caiu numa enorme depressão e aceitou ser acompanhado por um Psiquiatra. Nem ao fim de 5 anos de enorme esforço de manutenção e sobriedade, por parte do António, a Psiquiatria conseguiu atribuir-lhe qualquer diagnóstico, ainda que o medicasse para vários tipos de patologias psíquicas, das quais não se sabe até hoje se padecia.
Dedicou os últimos anos da sua vida acompanhando, orientando e ajudando pessoas com dependências para que se libertassem das mesmas, que ele bem conhecia. E tinha vários projetos criados para se dedicar inteiramente a esta missão, que descobriu ser a sua, tendo sempre como princípio base que todo e qualquer ser humano tem o direito a ser acolhido e ajudado.
As dificuldades que a Psiquiatria teve em identificar e definir diagnósticos, o incómodo que causava a medicação prescrita e todos os quadros emocionais e psicológicos causados pelo uso continuado da Canábis, ou outras substâncias psicoativas no seu passado, foram seguramente os principais motivos para que o António optasse por terminar a sua aventura aqui na terra. Se se diz que uma pessoa dependente passa a ter uma vida em recuperação, a partir do momento que assume um programa de vida e fica limpo e livre de substâncias, o António é hoje, por isso, uma pessoa recuperada.
A ABC foi criada pela Família e amigos do António de Bacelar Carrelhas com o objetivo principal de promover uma maior qualidade de saúde física, psicológica e espiritual, prevenir e reduzir os comportamentos desviantes, assim como as dependências, particularmente as de substâncias psicoativas, inspirando-se na vida do António, pois tal como ele sempre afirmou “O Tempo não Para”.
Desde então, e inspirada naquele que lhe deu origem, a ABC tem vindo a refletir o seu papel no mundo e a sua missão, face àqueles que são os desafios dos dias de hoje para os adolescentes e jovens portugueses.
O António acreditava que “todo o ser humano tem sempre direito a uma última oportunidade”. Esta postura diante da vida e dos outros marcou amigos, familiares e muitos outros que com ele se foram cruzando.
Algumas destas pessoas quiseram deixar aqui o seu testemunho, dando a conhecê-lo na informalidade dos sentimentos que provocou em cada um.
Tio, padrinho, companheiro, irmão e principalmente AMIGO:
Desde pequeno que sempre tivemos uma grande relação, com alguns desencontros pelo feitio e carácter único característico do tio, mas que hoje percebo o quão importante era, e é ser-se como o tio sempre foi: uma pessoa alegre, divertida, simpática, amiga, generosa, com uma capacidade de ouvir e perceber única, e com um ombro de amigo sempre disposto a ajudar.
“Nunca existiu uma grande inteligência sem uma veia de loucura”, já dizia Aristóteles. E é assim que hoje revejo o tio.
Após um ano de muita saudade e muito pensar, consegui perceber que a terra era um lugar pequeno demais para a sua grandeza e, por isso, decidiu voar mais alto para um sítio onde está consigo mesmo, em descanso. "O tempo não para" e cá em baixo, a família e amigos, já que pouco podem fazer, irão dar asas ao projeto ABC com que o tio tanto sonhava e assim dar continuidade ao início do seu trabalho.
O tio não desapareceu. Continua connosco. E por mais estranho que pareça, cada vez mais perto.
Um grande abraço cheio de saudade do seu “puto”, tamo junto e Até já!Francisco Carrelhas da Fonseca (Kiko)
António: Irmão, Amigo. Durante anos, metade do meu ser. Cheio de histórias e momentos inesquecíveis. Vividos com intensidade. Desejoso de partilhar a vida e de a viver toda como quem a ama. Agarrava cada momento como se do último se tratasse. Até ao último... o mais desejado. A suprema liberdade e a enorme saudade. Eu sei que estás vivo. Pelo menos na minha memória. A nossa música: "Olhar 43". A música que te define "Asas" (dos GNR).
Gonçalo Vaz de Carvalho
O meu amigo António era enorme. Apesar de fininho como um palito, as histórias que contava de um jeito meio carioca eram enormes e generosas, também como ele. Nós éramos miúdos e pouco habituados aos enormes horizontes e movida brasileira. O António trouxe-nos isso tudo e com ele crescemos. Crescemos juntos no Jardim da Burra, no Monte da Areia, nos Navegantes e no Quelhas, no Bananas e no Seagull, em Alportuche e no Portinho. Conversávamos, muito, ríamos às gargalhadas, sobretudo com o Alexandre. A certa altura a vida separou-nos. Já tinha saudades do António antes de ele partir mas agora as saudades são enormes de uma forma que só ele saberia descrever.
Manuel Andrade Neves
Conheci o António menino quando ele foi morar em Curitiba com seu pai, grande amigo e excolega de trabalho. Ocorreu uma empatia imediata entre nós dois, uma grande amizade e companheirismo constante, e finalmente um amor que transcendeu a distância que a vida impôs aos nossos caminhos. Para mim, lembrar do António é evocar sua doçura e sua disposição em compartilhar o seu melhor. A iniciativa de prolongar sua presença entre nós com a instituição da ABC Associação António de Bacelar Carrelhas vai muito além da homenagem a seu honrado nome. Sobretudo, é manter sua mão estendida com o apoio e o conforto para os que se dispõem a aceitar a necessária ajuda.
Suely Raya
Conhecemo-nos um dia depois de uma reunião de NA onde fomos todos até a um bar conversar, beber umas coca-colas e rir. Sentámo-nos um ao lado do outro, e quando demos por nós, riamos às gargalhadas à medida que partilhávamos as nossas peripécias da vida. A partir desse momento, foi raro o dia em que não falámos ao telefone, ou estivemos juntos. Passámos por momentos difíceis cada um, mas não abandonámos o outro, pelo contrário, fomos a âncora um do outro! Com o António aprendi a dar valor ao que tenho, principalmente fez-me ver a Mulher espetacular, as filhas e os amigos que tenho ao meu lado. O António ensinou-me a encarar a vida e os meus medos, e um dia ofereceume um salto de queda livre! Quando fecho os olhos... e me lembro dele... é a RIR e a CURTIR, é a dar uma aula de biologia numa caminha noturna em Sintra, é a gritar a cada segundo: O TEMPO NÃO PÁRA!! TAMO JUNTO!! Ou procurar AJUDAR alguém. E a cereja no topo do bolo era quando conseguia fazer isto tudo ao mesmo tempo! O António faz falta, muita falta!!! Pois a sociedade carece de pessoas boas e dispostas a fazer tudo para tornar o Mundo melhor... e essa pessoa para mim É o António. ;) TMJ
Nico
Primo, Sempre senti, que mais que um primo eras o meu irmão mais novo. Tantos momentos repartidos, convívio de grande intensidade, cheios de AMOR. Foi um AMOR fraterno que nos uniu, foram os nossos sonhos conjuntos concretizados. De Ti ficaram só boas memórias, hoje ao passear nos nossos terrenos contíguos da comporta, quantas vezes ainda me encontro contigo, projectando os nossos sonhos realizados - ALEGRIA. Mano, aquele abraço, e muitos beijos
Pedro Bacelar (Sempre Contigo)
Lisboa, S. Pedro de Moel, Comporta, Vale de Santarém, Pisão, Curitiba, S. José, Bombinhas, Camburiu, Estalagem... AMIZADE, partilha, momentos mágicos!!!Foram TANTOS!!! Histórias que são nossas, vividas com intensidade mas acima de tudo com uma cumplicidade que só os GRANDES AMIGOS merecem. Bom amigo, divertido, "louco”, simpático, inconstante, por vezes, calmo e eufórico, sensível. Falar do António não é fácil, porque sinto umas saudades IMENSAS. Comigo está e ficará para sempre!!!!
Margarida Rebello da Silva
"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre." Miguel Sousa Tavares
Isabel Andrade Dias (BU)
ABC – António de Bacelar Carrelhas, meu amigo de vida, inesquecível suporte de graça, energia, possibilidades, dinamismo e entrega. O meu mundo perdeu o teu arrojo, o teu sorriso, a tua humildade e a tua mão. Um ano sem ti… e ainda assim não fiquei sozinha. Ficou a presença e a gratidão de te ter tido como irmão.
Pinta
TOTAS, Obrigado! A entrega do António a tudo aquilo em que acreditava era sempre feita de uma forma “ devoradora” ao mesmo tempo que “ motivadora” e capaz de “inspirar” os mais cépticos de que Sim, era possível! TUDO era possível, desde que a Vontade que se pusesse nas coisas fosse SEMPRE Maior que a crença nos obstáculos que a vida nos coloca. Ele conseguiu acreditar nessa verdade até ao dia que decidiu descansar! Foi no dia 5 de Abril de 2012, que eu completamente descrente de que iria sobreviver à escravidão onde me encontrava, o vi à minha espera naquela esquina da Sampaio Bruno com a Almeida e Sousa. Óculos postos ao volante da sua carrinha, olhando-me com ar tanto de compaixão como de pena, mas com um Abraço reservado para mim do tamanho do Mundo, carregado de uma imensa Fé de que Eu pudesse - a partir daquele dia - escolher um Caminho Novo. Sem nada garantido, ainda cá Estou e espero que muitos venham a ser prevenidos de por onde não devem ir. Que a ABC possa cumprir o Teu Sonho, do qual ainda partilhámos algumas vezes! Até já Totas!
Ricardo Cazal-Ribeiro
Fui amigo do António durante mais de 30 anos e, nesse período, de maior ou menor convivência, ele nada me pediu. De nada se queixou. Apenas me deu: Amizade, risos e sorrisos, boa disposição e o seu habitual otimismo. E deu-me algo que nunca se esquece, ao levar-me à primeira festa - daquelas com "slows"! - a que fui. E depois disso fomos a muitas.
O António tinha direito a ter-me pedido tanto e certamente tinha razões para se lamentar de muitas coisas... Infelizmente nunca poderei compensá-lo.Miguel Pinto Coelho
ABC, são de facto, as três primeiras letras do nosso abecedário, mas neste caso concreto, são as iniciais de António de Bacelar Carrelhas! O ABC, assim conhecido por todos, quando trabalhámos ambos no Grupo Entreposto, quer por coincidência ou não, quer por ironia do destino, já conhecia o António desde criança e eis que os nossos caminhos académicos e profissionais, a determinada altura, cruzaram – se. Passámos em épocas diferentes, das nossas vidas, pelo mesmo curso e mais tarde, profissionalmente, eu chefiava um departamento, para o qual vim a recrutar o ABC, como nosso colaborador. Trabalhámos juntos, cerca de meia dúzia de anos, durante os quais, eu sempre tentei não beneficiar o António, por outro lado, também não prejudicá-lo, “nem 8 nem 80…..” , devido ás circunstancias que os nossos destinos, quiseram cruzar! O facto, é que com tudo isto houve sempre uma grande amizade, bem como um respeito mútuo. O ABC, não “pisava nunca o risco”, por ser quem era! O amigo do “Boss”/ Chefe , conseguindo sempre manter o equilíbrio da relação. O António, primava pela educação, aprumo e profissionalismo, além da sua simpatia natural e inata. Toda a gente, colegas e clientes, gostavam do ABC. Tinha um bom sentido de humor , sobretudo quando recordava os seus tempos de Brasil. Também “encaixava” bem, ás vezes quando as coisas corriam para o mal! Saudades, tenho muitas, da criança que conheci, boa e dócil, do jovem, que vi a crescer durante os períodos de férias, que mais uma vez o destino fez com que nos cruzássemos, do homem e profissional, que tive a sorte de orientar e chefiar. Nunca conheci ninguém que não gostasse do ABC! O António está e estará sempre no meu pensamento e comigo!
Manuel Ximenez
No ano 2000 a PT Multimédia.com e a Santogal constituíram a Motormédia para desenvolver e explorar o primeiro canal online intercativo dedicado à indústria automóvel. A Santogal indicou o António Carrelhas para director geral que aceitou o desafio que lhe propus quando lhe expliquei que viver é cumprir sonhos e que nesta viagem tínhamos muito para crescer. O António conseguiu combinar a sua sólida formação e experiencia no sector automóvel com a sua energia, dedicação e grande capacidade de trabalho. A velocidade de implementação de uma start-up numa área inovadora obrigava-nos a estar em contacto permanente e a tomar decisões rápidas e ponderadas. Conseguimos cumprir os prazos e o orçamento e o António confirmou a aposta certeira que fizemos nele. Perante as dificuldades que enfrentámos mantivemo-nos sempre unidos e com boa disposição e continuámos grandes amigos e em contacto. Enquanto a memória do António Carrelhas se mantem viva nada do que fizemos foi transitório e nada se perdeu. A amizade não acaba, não tem fim, logo não tem tempo. Ser amigo é ser presente.
Carlos Duarte
Administrador Santogal (Até 2012)
Conheci o António Bacelar Carrelhas nos meados da década de noventa, quando foi contratado para trabalhar na Santomar, oficina no Areeiro, como Responsável de Após Venda. Tinha estudado mecânica em Inglaterra e tal como outros seus colegas, estavam destinados a esta função, nas empresas do ramo automóvel. O António evidenciou-se, pelos seus conhecimentos, entusiasmo pela empresa e marca Honda, tinha muito bom relacionamento com os seus colaboradores e muito importante, tinha atitude comercial mas muito positiva com os clientes, assegurando a sua fidelização à Santomar. Devido ao seu trabalho e bom nome que granjeou, a Santogal propôs-lhe, nos finais dos anos noventa, uma função, numa atividade diferente e nova na época, criação dum site para promover diferentes assuntos ligados ao automóvel. Infelizmente esse projeto não teve o êxito esperado, por razões alheias ao António, e voltou para uma grande oficina da Mercedes, do grupo Santogal. Aí, pela pressão do trabalho e devido ao seu feitio, entrou em desânimo e passado pouco tempo, pediu a demissão do grupo. Fui acompanhando o António, mesmo depois de ter saído da Santogal, houve uma empatia mútua que o tempo não desvanece.
José Maria Corrêa de Barros
DG da Santomar (1992/2000)